Gripe: sintomas, tratamento e prevenção em 2026

influenza

Você sentiu aquela febre que chegou do nada, dor no corpo que parecia impossível de suportar, cabeça pesando toneladas e uma fraqueza que não te deixava nem levantar da cama. E pensou: “é só uma gripe.”

Mas a gripe não é “só” nada. É a doença infecciosa que mais mata no mundo todos os anos — e uma das mais mal compreendidas pela população.

Este artigo reúne dados do New England Journal of Medicine, da Organização Mundial da Saúde, da Fiocruz, do CDC americano e do Ministério da Saúde do Brasil para esclarecer de uma vez por todas o que é a gripe, como ela age no corpo, quem corre mais risco e o que a ciência recomenda para tratamento e prevenção.


Gripe e resfriado: a confusão que pode custar caro

A primeira e mais importante coisa a entender é que gripe e resfriado são doenças completamente diferentes — causadas por vírus diferentes, com gravidades diferentes e consequências muito diferentes.

Conforme explica a infectologista Lisandra Damasceno, do Hospital São José: “A gripe é causada principalmente pelo vírus Influenza A e B, enquanto o resfriado é causado por outros vírus respiratórios, como o vírus sincicial respiratório, o rinovírus e o vírus da parainfluenza.”

Na prática, como distinguir as duas?

CaracterísticaGripe (Influenza)Resfriado
InícioSúbito, abruptoGradual
FebreAlta (38–40°C), frequenteRara ou baixa
Dor no corpoIntensa, generalizadaLeve ou ausente
CansaçoIntenso, pode durar semanasLeve
TosseSeca, intensaLeve
CorizaModeradaIntensa
ComplicaçõesPossíveis e gravesRaras
Vacina disponívelSimNão

Segundo os Manuais MSD, referência médica global: “Influenza refere-se à doença causada pelos vírus da influenza, mas o termo é geralmente incorretamente utilizado para se referir a doenças semelhantes, provocadas por outros patógenos respiratórios virais.”


O que é o vírus Influenza e como ele age no corpo

O vírus Influenza pertence à família Orthomyxoviridae e se divide em três tipos principais: A, B e C. Os tipos A e B são os responsáveis pelas epidemias sazonais que ocorrem todo ano. O tipo A é o mais perigoso — é ele que causa as pandemias.

Quando o vírus entra no organismo — geralmente pelas vias aéreas superiores — ele se liga às células do epitélio respiratório e começa a se replicar rapidamente. O sistema imunológico detecta a invasão e lança uma resposta inflamatória intensa. É essa resposta imune — não o vírus diretamente — que provoca a maioria dos sintomas: febre, dor no corpo, fadiga.

De acordo com o protocolo da Secretaria de Saúde do Espírito Santo, baseado nas diretrizes do Ministério da Saúde: “O período de incubação da gripe é de um a quatro dias, com média de dois dias. A transmissão do vírus a partir de indivíduos infectados ocorre um a dois dias antes do início dos sintomas. O pico da excreção viral ocorre entre 24 e 72 horas do início da doença.”

Isso significa algo importante: você pode transmitir a gripe antes mesmo de saber que está doente.


Os sintomas: o que esperar e quando se preocupar

Um estudo prospectivo nacional americano publicado em 2025, acompanhando adultos durante a temporada de gripe 2024/25, mapeou os sintomas mais frequentes na primeira semana de infecção:

  • Tosse — presente em 75,2% dos casos
  • Nariz entupido ou coriza — 65% dos casos
  • Fadiga intensa — 39% dos casos
  • Mal-estar pós-esforço — 31% dos casos

A febre é o sinal mais característico, especialmente em crianças. Segundo o protocolo de manejo clínico da SESA-ES: “A febre (temperatura acima de 37,8°C) é o sinal mais proeminente em crianças com gripe; caracteriza-se, geralmente, por início súbito, com declínio por volta do terceiro dia e normalização em até 6 dias.”

Em adultos, os demais sintomas sistêmicos frequentes incluem: mialgia (dor muscular), calafrios, mal-estar geral, apatia, fadiga e cefaleia.

⚠️ Quando procurar atendimento médico urgente

  • Dificuldade para respirar ou falta de ar
  • Dor ou pressão persistente no peito
  • Confusão mental ou desorientação
  • Febre muito alta que não cede com antitérmico
  • Lábios ou unhas azulados
  • Piora dos sintomas após melhora inicial

A temporada 2025–2026: o que mudou e o que preocupa os especialistas

A temporada de gripe 2025–2026 trouxe uma novidade que colocou os virologistas em alerta global: o surgimento de uma nova variante, o Influenza A(H3N2) subclade K, também chamado de J.2.4.1.

Segundo artigo publicado no JAMA (Journal of the American Medical Association) em janeiro de 2026, assinado pelo Dr. Frederick G. Hayden: essa variante, detectada pela primeira vez em junho de 2025 em Nova York, rapidamente se tornou a cepa dominante em múltiplos países — Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, partes da África e da Ásia. O Influenza A(H3N2) é conhecido por sua alta taxa de evolução e propensão a causar epidemias graves, especialmente em idosos.

Nos EUA, a temporada foi particularmente severa. Uma análise publicada no JAMA descreveu a temporada 2024–2025 como marcada por “significativa morbidade e mortalidade em todos os grupos etários, apesar de moderada efetividade vacinal.”

No Brasil, o cenário também foi preocupante. Segundo o Boletim Infogripe da Fiocruz, em 2025 a Influenza A ultrapassou a Covid-19 como causa de mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), com mais de 1.800 mortes registradas por influenza no país.

Um estudo liderado pela Fiocruz, publicado em janeiro de 2026 e que analisou a circulação dos vírus influenza no Brasil entre agosto de 2024 e agosto de 2025, confirmou o predomínio do subtipo Influenza A(H1N1)pdm09 no território brasileiro, com circulação simultânea de outras linhagens. A boa notícia: os subtipos analisados permaneceram compatíveis com as cepas utilizadas nas vacinas.


O cenário na Europa: o que o ECDC está monitorando

Na Europa, a autoridade máxima de monitoramento de doenças infecciosas é o ECDC — Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças — que publica relatórios semanais sobre a circulação do vírus em todos os países da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu (EEA).

Os números da gripe na Europa assustam por sua escala. Segundo o ECDC, em uma temporada típica, a influenza causa:

  • Até 50 milhões de casos sintomáticos por ano na Europa
  • Entre 15.000 e 70.000 mortes anuais na União Europeia
  • Até 20% da população europeia contrai influenza a cada temporada
  • Impacto especialmente grave em idosos e pessoas com doenças crônicas
  • Em asilos e instituições de longa permanência, os surtos têm alta mortalidade

A temporada 2025–2026 foi particularmente preocupante na Europa. Segundo um relatório do ECDC publicado em novembro de 2025, a atividade gripal na região começou três a quatro semanas mais cedo do que nas duas temporadas anteriores — um sinal claro de que a nova variante H3N2 subclade K estava se espalhando com velocidade incomum.

O ECDC monitorou a circulação do subclade K na Europa com atenção especial: a nova variante chegou a representar 47% de todas as sequências do vírus A(H3N2) depositadas no banco de dados global GISAID provenientes de 19 países da UE/EEA entre maio e novembro de 2025. Países como França, Alemanha, Itália, Espanha, Irlanda, Portugal, Holanda e Romênia participaram dos estudos multicêntricos de eficácia vacinal coordenados pelo ECDC.

O sistema EuroMOMO — que monitora a mortalidade em excesso em toda a Europa — registrou mortalidade acima do esperado entre a semana 51 de 2024 e a semana 9 de 2025, afetando principalmente adultos com 45 anos ou mais, com impacto crescente conforme a idade aumenta.

Um dado importante revelado pelas análises do ECDC: a variante K apresenta um número substancialmente maior de mutações do que o observado na evolução do vírus em temporadas anteriores. Isso criou uma preocupação real sobre o alinhamento entre a vacina disponível e a cepa dominante — um fenômeno chamado de mismatch vacinal. Apesar disso, o ECDC reforçou que a vacinação continua sendo essencial para reduzir doenças graves, proteger populações de risco e manter a resiliência dos sistemas de saúde — mesmo quando a eficácia contra infecção é reduzida pela deriva antigênica.

O estudo multicêntrico europeu I-MOVE, coordenado pelo ECDC com participação de nove países, analisou 866 casos confirmados de influenza entre outubro e dezembro de 2025. Os resultados reforçaram a importância do monitoramento contínuo da eficácia vacinal em tempo real, especialmente diante de variantes emergentes.


Gripe aviária H5N1: a ameaça que a OMS está monitorando

Além da gripe sazonal, os especialistas estão de olho em uma ameaça mais séria: o vírus da Influenza aviária A(H5N1) e suas variantes, que continuam se espalhando entre animais e causando infecções humanas esporádicas.

Em fevereiro de 2026, a Organização Mundial da Saúde anunciou novas recomendações para a composição das vacinas da temporada do Hemisfério Norte 2026–2027, após uma consulta de quatro dias que examinou dados globais de vigilância. A ONU News informou que, desde setembro de 2025, 25 infecções humanas com influenza zoonótica foram reportadas à OMS por seis países. A maioria dos casos ocorreu em pessoas expostas a animais infectados. Nenhuma transmissão de pessoa para pessoa foi relatada até o momento.

Ainda assim, a OMS incluiu o vírus AH9N2 como candidato a vacina pandêmica — sinal de que o monitoramento preventivo está sendo intensificado.


Quem corre mais risco de complicações graves

Para a maioria das pessoas saudáveis, a gripe é uma doença autolimitada — o corpo combate e elimina o vírus em 5 a 7 dias, com a tosse podendo persistir por até duas semanas. Mas para alguns grupos, ela pode evoluir para complicações graves como pneumonia, insuficiência respiratória e até morte.

Segundo o Guia de Manejo e Tratamento de Influenza do Ministério da Saúde do Brasil, os grupos com maior risco de complicações são:

  • Gestantes e puérperas — até 2 semanas após o parto ou aborto
  • Crianças menores de 5 anos — especialmente menores de 2 anos e, principalmente, menores de 6 meses
  • Idosos com 60 anos ou mais
  • Pessoas com doenças crônicas — pneumopatias, doenças cardiovasculares, diabetes, doenças renais, hepáticas e hematológicas
  • Imunossuprimidos — pessoas em tratamento com corticoides, quimioterápicos, portadores de HIV/aids ou em tratamento oncológico
  • Obesos com IMC ≥ 40
  • Pessoas com transtornos neurológicos — epilepsia, paralisia cerebral, síndrome de Down, AVC
  • Populações indígenas aldeadas ou com dificuldade de acesso a serviços de saúde

Tratamento: o que funciona e o que não funciona

Para a maioria das pessoas, o tratamento da gripe é sintomático — ou seja, visa aliviar os sintomas enquanto o sistema imunológico faz seu trabalho:

  • Repouso — fundamental para a recuperação
  • Hidratação — água, chás, sucos naturais
  • Antitérmicos e analgésicos — paracetamol ou ibuprofeno para febre e dor muscular
  • Descongestionantes — para alívio da coriza e congestão nasal

⚠️ Atenção: aspirina (ácido acetilsalicílico) não deve ser usada em crianças e adolescentes com gripe — há risco de síndrome de Reye, uma complicação grave que afeta fígado e cérebro.

Antivirais: quando são indicados?

Os antivirais são medicamentos que agem diretamente contra o vírus Influenza — e fazem diferença quando usados cedo. Segundo os Manuais MSD: “Medicamentos antivirais diminuem ligeiramente a duração da febre, a gravidade dos sintomas e o tempo para retornar às atividades normais quando administrados dentro de 1 a 2 dias após o início dos sintomas.”

O principal antiviral disponível é o oseltamivir (Tamiflu), que inibe a neuraminidase viral — uma proteína que o vírus usa para se espalhar pelas células respiratórias. Existem ainda o zanamivir, o peramivir e o baloxavir marboxil como alternativas.

De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde do Brasil, o oseltamivir está indicado para:

  • Todos os grupos de risco descritos acima, independentemente do tempo de início dos sintomas
  • Pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
  • Pode ser considerado pelo médico para qualquer caso, mesmo sem fatores de risco

Regra de ouro: o antiviral deve ser iniciado preferencialmente nas primeiras 48 horas do início dos sintomas. Após esse prazo, o benefício diminui — mas em pacientes de risco ou com SRAG, o tratamento deve ser iniciado mesmo se forem passadas as 48 horas.

O oseltamivir está disponível gratuitamente no SUS mediante prescrição médica.


A vacina: o que a ciência diz em 2026

A vacina contra a gripe é o tema mais importante deste artigo — e o mais mal compreendido.

Por que precisa ser tomada todo ano?

O vírus Influenza sofre mutações constantes — é o que os cientistas chamam de deriva antigênica. Isso significa que as cepas que circulam em um ano podem ser diferentes das do ano anterior. Por isso, a composição da vacina é atualizada anualmente, com base no monitoramento global coordenado pela OMS.

Conforme a nota técnica da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), publicada em abril de 2026: “As vacinas de anos anteriores não garantem proteção adequada no ano atual. Todas as pessoas a partir de 6 meses de idade devem se proteger.”

A vacina de 2026

A vacina Influenza Quadrivalente 2026 protege contra quatro cepas do vírus — duas do tipo A e duas do tipo B. A composição foi definida com base nos dados do sistema de vigilância global da OMS.

Um estudo liderado pela Fiocruz, publicado em janeiro de 2026, analisou a circulação dos vírus no Brasil durante a temporada 2024–2025 e confirmou que as vacinas utilizadas foram eficazes contra as principais cepas em circulação no país. Os pesquisadores também investigaram marcadores de resistência ao oseltamivir — os achados foram raros e não indicam perda de eficácia do antiviral.

Uma revisão sistemática independente publicada no New England Journal of Medicine em 2026, que analisou 511 estudos sobre eficácia e segurança das vacinas contra influenza, reafirmou que a vacinação está associada a uma redução substancial no risco de desfechos graves em todas as populações avaliadas.

Quem deve se vacinar prioritariamente no Brasil

Segundo a nota técnica da SBIm de abril de 2026, a vacina está disponível na rotina do PNI (Programa Nacional de Imunizações) para:

  • Crianças de 6 meses a menores de 6 anos
  • Gestantes
  • Idosos a partir de 60 anos

Para os demais grupos de risco e para a população em geral, a vacina está disponível na rede privada. A recomendação é vacinar antes do início da sazonalidade — no Brasil, o período de maior circulação do vírus é entre os meses de maio e agosto.

A vacina pode me dar gripe?

Não. As vacinas contra influenza disponíveis no SUS contêm vírus inativados — ou seja, mortos — que não têm capacidade de causar a doença. O que algumas pessoas sentem após a vacinação (dor no local, febre baixa, mal-estar leve) é uma resposta normal do sistema imunológico, não a gripe em si.


Prevenção além da vacina

A vacinação é a medida mais eficaz, mas não é a única. Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, outras medidas comprovadamente eficazes incluem:

  • Lavar as mãos frequentemente — com água e sabão por pelo menos 20 segundos, ou usar álcool em gel 70%
  • Etiqueta respiratória — cobrir nariz e boca ao tossir ou espirrar, de preferência com o cotovelo
  • Evitar aglomerações — especialmente em épocas de alta circulação do vírus
  • Manter ambientes ventilados — o vírus se transmite principalmente por gotículas respiratórias em ambientes fechados
  • Não compartilhar objetos pessoais — copos, talheres, toalhas
  • Ficar em casa quando doente — a transmissão é maior nos primeiros dias de doença

O que a ciência ainda não sabe — e está investigando

A pesquisa sobre influenza está longe de estar esgotada. Dois dos desenvolvimentos mais promissores em 2026:

Vacinas de mRNA contra influenza: assim como as vacinas de mRNA contra Covid-19, pesquisadores estão desenvolvendo vacinas de mRNA para influenza que poderiam ser atualizadas muito mais rapidamente do que as vacinas tradicionais — o que seria uma vantagem enorme diante da velocidade de mutação do vírus. O New England Journal of Medicine publicou em 2026 uma análise inicial dos primeiros resultados, que mostraram dados promissores de eficácia e segurança.

Monitoramento do risco pandêmico: a OMS e o CDC estão intensificando a vigilância sobre as variantes zoonóticas — especialmente os vírus H5N1 e H9N2 — que circulam em animais e têm potencial de se adaptar para transmissão eficiente entre humanos. É esse tipo de monitoramento que deu ao mundo algumas semanas de antecipação durante a pandemia de Covid-19.


As informações deste artigo são baseadas em publicações do New England Journal of Medicine (NEJM), JAMA, Manuais MSD, Fiocruz, Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde do Brasil, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Secretarias Estaduais de Saúde. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica.

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