Quem Tem Mais Risco de Desenvolver Alzheimer?

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Quando se fala em Alzheimer, a maioria das pessoas pensa num idoso de 80 anos que começa a esquecer nomes. Mas a realidade é bem diferente — e muito mais urgente do que se imagina.

Algumas pessoas têm risco significativamente maior de desenvolver a doença. E conhecer esses fatores é o primeiro passo para agir antes que seja tarde.


Mulheres: o grupo mais afetado

Dois terços de todos os casos de Alzheimer no mundo ocorrem em mulheres. Por muito tempo, acreditou-se que isso acontecia simplesmente porque elas vivem mais. Mas o Dr. Paulo explica que a ciência já encontrou a verdadeira razão: o estrogênio.

Enquanto presente no organismo, o estrogênio protege o cérebro de várias formas: reduz a produção de proteínas beta-amiloides, acelera a limpeza das placas e suprime a neuroinflamação. Com a menopausa, essa proteção desaparece — e o cérebro feminino passa por mudanças estruturais reais.

Pesquisas mostram que durante a menopausa ocorre queda no metabolismo cerebral de glicose e aumento no depósito de beta-amiloide. E quanto mais cedo a menopausa chega, maior o risco décadas depois.

Há ainda um segundo fator ignorado: mulheres têm o dobro do risco de depressão, e a depressão não tratada na meia-idade aumenta em até 70% o risco de Alzheimer.

A mulher de 65 anos tem uma chance em 5 de desenvolver a doença ao longo da vida. Um homem da mesma idade tem uma em 10.


Aposentados: quando o cérebro para de ser desafiado

O estudo Whitehall 2, que acompanhou mais de 3.400 pessoas por 14 anos antes e após a aposentadoria, mostrou que o declínio na memória verbal foi 38% mais rápido depois de parar de trabalhar.

O Dr. Paulo explica o motivo: o trabalho mantém o cérebro em três estados críticos ao mesmo tempo — obriga o córtex pré-frontal a tomar decisões complexas, mantém conexões sociais reais e impõe uma rotina que regula o sono e os hormônios do estresse. Quando tudo isso para de uma vez, o cérebro perde esses três estímulos simultaneamente.

Aposentar do trabalho não significa necessariamente aposentar o cérebro. Quem continua aprendendo, se relacionando e tendo um propósito protege a mente. Quem para completamente vai pagar o preço anos depois.


Pessoas entre 40 e 50 anos

Esse é um dos alertas mais importantes do Dr. Paulo: o Alzheimer não começa com o diagnóstico. Ele começa décadas antes, em silêncio, com hábitos que parecem inofensivos.

Estamos vendo um aumento assustador de casos de demência de início precoce — pessoas na faixa dos 40 e 50 anos com falhas cognitivas graves. Aquele nome que foge da ponta da língua, a dificuldade de manter o foco numa leitura, entrar num cômodo e esquecer o que foi fazer lá — esses não são apenas sinais de cansaço. Podem ser os primeiros avisos biológicos de que a reserva cognitiva está no limite.

A janela para reverter isso não é amanhã. É agora, enquanto ainda há autonomia para agir.


Portadores do gene APOE4

O gene APOE4 é um dos fatores genéticos mais diretamente ligados ao Alzheimer. Ter uma ou duas cópias desse gene não significa que a doença vai se desenvolver necessariamente — mas indica um risco significativamente maior, e exige cuidados redobrados com estilo de vida.

A boa notícia, destacada pelo Dr. Paulo, é que mesmo pessoas com histórico familiar e com o gene APOE4 apresentaram melhora mensurável na função cognitiva ao adotar mudanças no estilo de vida — conforme demonstrado pelo estudo FINGER, publicado no JAMA em 2025.


Usuários de certos medicamentos por mais de 5 anos

Este é um alerta que o Dr. Paulo considera fundamental: o uso prolongado de alguns grupos de medicamentos está associado a um aumento significativo no risco de demência.

Os quatro grupos que merecem atenção são:

  • Anti-histamínicos de primeira geração — como Benadryl e Polaramine, usados para alergias mas que causam sonolência
  • Amitriptilina — prescrita para dor crônica, insônia e enxaqueca
  • Oxibutinina — usada para bexiga hiperativa
  • Benzodiazepínicos — como diazepam e clonazepam, usados para ansiedade e insônia

Os três primeiros grupos bloqueiam a acetilcolina, o neurotransmissor da memória — justamente o que está em falta no Alzheimer. Os benzodiazepínicos agem por outro caminho, mas também estão associados ao declínio cognitivo quando usados por longo prazo.

O Dr. Paulo é claro: ninguém deve parar esses medicamentos por conta própria. Mas vale levar essa informação ao médico e perguntar se existem alternativas mais seguras para o seu caso.


O que esses grupos têm em comum

Seja pela queda hormonal, pela inatividade cognitiva, pela genética ou pelo uso prolongado de medicamentos, todos esses fatores convergem para o mesmo ponto: um cérebro que não recebe os estímulos e os nutrientes de que precisa começa a encolher.

E a Comissão Lancet para Demência é clara: até 45% dos casos poderiam ser evitados eliminando fatores de risco modificáveis. Nenhum deles exige receita médica. Todos exigem decisão.

No próximo post desta série, vamos falar sobre os hábitos silenciosos do dia a dia que destroem o cérebro — e que a maioria das pessoas nem associa ao Alzheimer.


As informações deste post são baseadas nos conteúdos do Dr. Paulo Porto de Melo, neurologista e neurocirurgião, formado pela Unifesp e pós-graduado em Harvard, com mais de 25 anos de experiência clínica.

Acompanhe o Dr. Paulo no Instagram: @ppmelo

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